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"Get Back" veio para reafirmar a grandeza dos Beatles

Texto por Igor Monteiro


Divulgação/Disney +


51 anos depois do anúncio do fim dos Beatles e cá estamos nós, de uma outra geração, ainda comentando sobre os caras. Ou melhor, cá estamos nós comentando sobre um trabalho que é um marco histórico para a biografia da banda. Get Back, a série de 3 episódios dirigida pelo premiado diretor Peter Jackson e exclusiva do Disney +, é de fato um presente aos fãs. Não sei se sou capaz de descrever por completo o que essas mais de 6 horas representam. Afinal, uma coisa que me passava na cabeça a cada minuto rolado desse filme é de quantos fãs não puderam ter essa experiência, que demorou meio século pra ser revelada.


Queria até dedicar este texto ao meu falecido tio Monteiro, que me aplicou Beatles quando criança e vivia me mostrando vídeos dessa fase deles.


Para quem não está por dentro, Get Back é um documentário que conta a história por trás da produção de um outro documentário, o Let It Be. Esse aí saiu em 1970, dirigido pelo Michael Lindsay-Hogg e lançado junto do álbum homônimo. Originalmente, o Let It Be era pra ser um filme sobre os Beatles produzindo um disco ao longo de janeiro de 1969, mas o projeto tomou outros rumos e acabou se tornando um documentário que não agradou muito aos membros da banda.


O Get Back pega tudo o que a equipe do Lindsay-Hogg gravou e, em terceira pessoa, observa todo o contexto por trás da produção, inclusive desses "outros rumos" que citei - além, é claro, de fazer referência a uma das músicas mais legais do disco. Portanto, estamos falando de um material inédito, que coloca os fãs nos bastidores dessas gravações! E de um jeito bem íntimo.

Divulgação/Disney +


Tecnicamente falando, chama a atenção a qualidade audiovisual do material. Os vídeos registrados originalmente pelas lentes de uma 16mm e os áudios captados das fitas analógicas de cinco décadas atrás estão com uma qualidade absurda, fruto de um trabalho impecável da captação da equipe de Michael Lindsay-Hogg e da restauração digital da equipe do Peter Jackson.


Esse aspecto, inclusive, faz parte do primeiro grande ponto positivo desse documentário pra mim, que é o zelo. Peter Jackson, acostumado a trabalhar com produções grandiosas, teve o cuidado de apresentar ao fã o que ele merece. Com plena consciência da relevância histórica do material que tinha em mãos, montou uma narrativa fidedigna ao que estava registrado nas dezenas de horas de gravação, entregando um documentário longo e denso.


Para algumas pessoas, a monotonia toma conta depois de um tempo. Esse é realmente um ponto a se pensar: este é um filme feito para os fãs. Não é difícil que um espectador comum se perca em meio a algumas longas conversações ou em loops infinitos das músicas. E tudo bem. Mas reitero meu ponto de que tudo isso faz parte do zelo. O fã sempre quis ver as conversações banais ou relevantes e os erros e acertos nos ensaios, porque assim ele consegue se sentir de fato um espectador daqueles acontecimentos, aproximando-se dos ídolos de uma época remota. Posso estar errado, afinal, muita gente prefere algo mais direto ao ponto. Nesse caso aqui, eu não.

Mas de banal o Get Back não tem nada. O hype valeu a pena. Repleto de cenas memoráveis sobre a criação de composições icônicas para a história da música pop, o documentário tem passagens de grande relevância, que nunca foram vistas. Discussões que tiram um "wow" do espectador e outros vários momentos de tensão, cenas hilárias e outras emocionantes - tem de tudo um pouco. E aí adentramos em um outro ponto positivo do documentário: a ressignificação. Seja ela dos acontecimentos, dos personagens, ou das músicas: temos um outro ponto de vista sobre a fase final dos Beatles. Só pra se ter uma ideia, Ringo e especialmente Paul mudaram seu ponto de vista sobre "o período das trevas" da banda após assistir o documentário.


Algumas coisas já eram sabidas, como a liderança de McCartney, principalmente após o disco Revolver, e a tensão que os rondava nesse período, por pressões externas ou internas. Mas nada é tão preto no branco assim e o documentário traz uma sucessão de eventos não lineares que nos faz ter uma dimensão maior sobre a complexidade da história que tá sendo contada. Vida, afinal.


Rolou até um "Justiça para Yoko" nas redes sociais, que no senso comum carregava o fardo de ter sido a principal responsável pelo rompimento dos Beatles há décadas.

Divulgação/Disney +


Ao expor as vaidades, contradições, o humor e as (in)certezas juvenis dos Beatles - na época das gravações, Ringo, o mais velho, tinha 28 anos - o documentário humaniza seus personagens. Como um riquíssimo acervo histórico, precisávamos conhecer o que estava para além do mito. E, a princípio, o que estava lá reafirmou a grandeza dos Beatles.

Get Back fez muito barulho na semana de seu lançamento. Levantou vários debates e até pacificou alguns pontos entre os fãs. Fez muita gente assinar o Disney + e viralizar conteúdos nas redes sociais. Despertou o interesse pela banda em muitas pessoas que sempre souberam da existência, mas ainda não haviam adentrado o universo dos Beatles.


Do ponto de vista cinematográfico, ele pode dividir opiniões, pelo motivo que eu citei - o ritmo lento. Mas tinha como ser diferente? Como disse antes, o documentário é um presente aos fãs. De minha parte, além de não ter ficado entediado, fica a impressão de que o final resolve bem a monotonia propositalmente criada. Me emocionei muito e achei espetacular a forma como Peter Jackson conduziu o encerramento. Demorei alguns dias pra finalizar todas as 6 horas, acabei me apegando e terminei querendo que tivessem mais 3 episódios na semana seguinte.


Por fim, a reverberação do documentário na cultura pop revela, na minha opinião, a enorme relevância que a banda possui no tempo presente. O gosto pelos Beatles nunca foi uma unanimidade - por pouco, hein? Mas para além de um fenômeno musical, eles foram sim um fenômeno cultural que transformou comportamentos e adentrou a modernidade expandindo a sua influência, tornando-se atemporais. Get Back quis demonstrar isso de maneira inédita, sem ser piegas ou sensacionalista, o que o coloca em uma posição única em meio ao farto material biográfico já existente sobre a banda.


Fiquem com essa brilhante apresentação e a certeza de que Billy Preston foi fundamental para a sonoridade do álbum Let It Be:






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