"Esse disco é você"
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Falsa Modéstia lança Triunfo, disco de estreia por Juliana Semedo
Eu nunca tinha recebido um disco antes do lançamento para ouvir.
Tampouco, tido o privilégio de acompanhar o processo de produção de um álbum desde o início: as demos, as primeiras músicas, as primeiras músicas com letras, as versões finalizadas, a versão final na íntegra antes de todo mundo.
Digo mais: de certa forma, sinto que estimulei o nascimento do disco, e até mesmo do projeto em si.
Óbvio, que o projeto já era desejo do artista há [bastante] tempo.
Mas sinto que a conversa que tivemos uns meses atrás pelo Whatsapp deu um empurrãozinho. Coincidentemente, enquanto o Vasco jogava.
Lembro que falei que ele deveria explorar mais a sua individualidade musical, trazer mais as suas referências sonoras. E isso nada tem de egoísmo.
Deve ser bem legal ter banda e compor de forma coletiva. Mas fazer as coisas de forma individual permite expressar com mais liberdade as nossas referências e o que sentimos.
Nesse dia, a conversa até fluiu. Depois, desconversou, disse que era um papo pra depois.
Já tinha em mente o que ia fazer.
Eu sabia disso.
Quando decidiu que ia dar vida ao projeto - ou literalmente tocá-lo [perdoe o duplo sentido ruim e clichê. risos], fui a segunda pessoa a saber.
O que me faz sentir privilegiada. Tanto pelo incentivo, como pela confiança ao compartilhar a novidade comigo.
Soube quem ele chamaria pra tocar junto antes mesmo delas.
O artista: Igor Monteiro, vocalista, guitarrista e compositor da Remédio sem Causa. O projeto: Falsa Modéstia.
O álbum: o Triunfo. Esse mesmo, lançado oficialmente ontem nas plataformas, mas disponibilizado para um grupo de colaboradores desde o dia 11 de agosto pelo Bandcamp. Excelente estratégia. A mesma usada de forma bem-sucedida no Ruptura, último álbum da RsC.

Igor Monteiro por Tereza Izabel
Lembro que ele me mostrou a primeira demo, ainda sem letra, no dia 30 de junho, em um bar aqui em BH.
Os dias se passavam, e eu recebia as músicas, com alegria, uma a uma. Até que fui convidada a escrever o texto de lançamento, aqui no blog da Rapadura.
Chique, né? É como se estivesse escrevendo o prefácio de um livro.
Confesso que senti um tiquinho de medo tamanho o desafio. Apesar de jornalista e saber escrever resenha, não consigo deixar de colocar um tanto de mim nos textos.
Resenhas analíticas soam frias ou técnicas demais. Meio masturbação intelectual, saca? O que essa música parece, como a guitarra soa, o que o baixo faz. Ouçam e tirem suas próprias conclusões. Música é algo tão subjetivo, que prefiro falar de como ela me atravessa e o do meu envolvimento com ela.
Que, neste caso, veio desde o início. Acompanhei o álbum sendo construído e, a partir disso, fui vivenciando e sentido o processo todo. De certa forma, eu tava tão perto de tudo que seria impossível escrever como se estivesse de fora.
Foi lindo ver as músicas tomando forma e, como elas soavam de um jeito totalmente quando ganhavam letras.
Recebi primeiro Festa Fascista e Artificial.
Festa Fascista grudou. Já tá na minha seleção de discotecagem. É punk, é dançante, é crítica, é atual. Ótima escolha como single de lançamento.
Artificial também, lembro que pensei na hora: é uma música que o Gabriel Thomaz do Autoramas, faria. Tanto letra como música
Alguns dias depois, recebi Cinza. Linda, meio pós-punk. Diferente do punk dançante das duas anteriores. Curiosamente, uma das minhas preferidas. A outra é Por um Fio, que lembra The Clash, aí sim um estilo que se identifica muito mais comigo.
Foi aí que eu comecei a sacar como seria o álbum. Um pouco de tudo o que o Igor gosta e é referência pra ele.
Recebendo as outras músicas, fiquei curiosa como a narrativa do álbum seria construída. Traduzindo: qual seria a ordem. Imaginei que ele fosse fazer isso mesmo: causar um estranhamento, com faixas mais poéticas - eu diria - no meio daquelas mais punk.
Depois de ouvir tudo na íntegra, enviei um áudio na hora: "esse disco é você".
É um disco de verdade, tão verdadeiro, que tem tudo dele ali, o que faz sentido pra ele: seja na estética sonora ou nas letras.
Confesso que achei que o álbum seria meio Fontaines D.C. Supreendentemente, não tem nada da banda ali.
É bem antes deles. É a primeira geração do punk. É o punk dos anos 70, tanto o britânico quanto o estadunidense, mais cru e muito crítico. Que aliás, é uma das propostas do projeto e do álbum: romper com os excessos. As músicas são curtas e as letras diretas.
E, claro, também tem o pós-punk. Cinza é uma delas. Inatingível é outra.
Tem a individualidade dele ali, seja na forma como a guitarra soa [o Igor é um dos poucos que sabem tirar um som diferente de uma Stratocaster]. Você sabe que é a guitarra dele pelo jeito dele de tocar.
Na personalidade das melodias vocais.
E nas letras, sejam aquelas que falam sobre os problemas do nosso tempo -
A extrema direita asquerosa, em Festa Fascista:
Festa fascista
Acabando com a sua vida
Festa fascista
Um delírio elitista
Ou a crítica ao vazio provocado pela telas e a IA, em Artificial:
Pra quê um amigo na vida real
Se eu já tenho o meu artificial
Que olhe e me acolhe sem julgamentos
Alguém que ouve os meus sentimentos
Naquelas que falam "só" sobre si mesmo, em Desligado:
Você não consegue reagir
Você não consegue produzir
Você não consegue ser alguém
Ou quando junta as duas coisas: como os males dos nosso tempos nos afetam, como faz lindamente em Cinza:
Prédios e mais prédios
Em ritmo concreto
As flores reprimidas
E o cinza sufocante
As pessoas na rua
Cada vez mais distantes
Inatingível talvez seja a única em que a influência sonora é mais explícita. No caso, The Cure. Mas tá perdoado. Como se devesse que pedir desculpas a alguém, né? Mas se é um disco, no qual ele traz tudo o que gosta e o que impactou ou impacta, nada mais justo e bonito: é a banda preferida dele. Além de ser bonita pra caramba e soar bem demais ao vivo. Luiz disse, inclusive, que foi a melhor ao vivo.
Ele deixa a influência bem clara, quando diz ao final da música:
E é como se estivesse mais uma vez vendo o show do The Cure
O nome do disco, Triunfo, é justificado por ser um projeto só seu, reunindo tudo o que tem a ver com ele com muita autenticidade e um detalhe super importante: foi inteiramente produzido e gravado por ele. Talentoso.
E falso modesto que é, ele sabe que é bom.
O triunfo foi materializado no último dia 22, no primeiro show da Falsa Modéstia, que reuniu dois músicos incríveis, as melhores escolhas para compor a banda: Breno Assis, no baixo, e Luiz Ramos, na bateria. Essa vai ser a formação para os shows.

Falsa Modéstia em show no La Mota Pub, em São João del Rei, no dia 22 de agosto. Foto: Samya Pereira
E você vai ouvir e ver muito Falsa Modéstia por aí.




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