50 anos de Andy Bell (Thank You For The Good Times)

Atualizado: 19 de Set de 2020


Texto por Pedro Dias, novo redator da Rapadura


Foto: Julian Hayr Photography

Ride; Hurricane #1; Oasis; Beady Eye; Ride... Esse é, basicamente - dentre várias outras colaborações, pseudônimos e projetos -, o currículo e a trajetória musical do "galês de Oxford" Andrew Piran Bell. E, curiosamente, na mesma semana em que ele completa 50 anos de vida, e que este texto estava programado para ser publicado, ele nos presenteia com o anúncio de seu primeiro álbum solo, The View From Halfway Down, e o primeiro single do mesmo, Love Comes in Waves.


Andy Bell (guitarra/vocais), Mark Gardener (guitarra/vocais), Steve Queralt (baixo) e Loz Colbert (bateria) formaram o Ride ainda muito jovens, em 1988. Já em 1989, após abrirem um show da banda The Soup Dragons, são contratados por Alan McGee e seu lendário selo indie, a Creation Records, para no ano seguinte lançarem seus 3 primeiros EPs: Ride, Play e Fall.


Foto: Brian Rasic/REX

Com as 3 amostras adentrando o UK Top 75, tornando-os a primeira banda da Creation a conseguir o feito nas paradas de singles do Reino Unido, 1990 viu também o lançamento de seu álbum de estreia, o seminal Nowhere. Com sua atmosfera caótica e, ao mesmo tempo, melódica de um turbilhão de guitarras e efeitos, baterias rápidas e pesadas e vocais suaves, quase oníricos, o álbum estabeleceu-se, ao lado de obras como Loveless (1991), do My Bloody Valentine, e Souvlaki (1993), do Slowdive, como uma das referências máximas do shoegazing - subgênero do rock alternativo, proeminente no Reino Unido entre o final da década de 1980 e o início dos anos 90 -, sendo Andy o compositor da maioria das faixas.


Em meados de 1992, a banda já havia alcançado um patamar em que excursionava ao redor do mundo, divulgando seu segundo álbum, o também aclamado Going Blank Again - um trabalho menos barulhento, com Mark assinando metade das composições, e que abordou uma sonoridade mais abrangente, embora ainda muito associada ao shoegaze.


Foto: Greg Neate

Nos anos seguintes, a Grã-Bretanha entra em ebulição com a ascensão do chamado Britpop, fenômeno cultural encabeçado por bandas como o Pulp, o Blur e, principalmente, o Oasis, que colocou a Inglaterra nos holofotes do rock mundial, após um longo período às sombras do Grunge americano. Ninguém queria saber de mais nada, estádios e fazendas comportaram shows abarrotados e, nesse clima festivo, o shoegaze fora esquecido. Enquanto isso, as tensões cresciam cada vez mais entre os membros do Ride, principalmente entre Andy e Mark, ao ponto de lançarem, em 1994, seu terceiro disco, Carnival of Light, com um tracklist que consistia em uma primeira metade com as faixas escritas por Mark, e a segunda, com as composições de Andy. Eles não queriam, sequer, misturar mais suas músicas em um mesmo conjunto. No entanto, o resultado é um belíssimo disco de Britpop, embora não tenha contado com a atenção da mídia e do público, voltados para a quantidade de bandas surgindo na crista da onda dos irmãos Gallagher, Damon Albarn, Jarvis Cocker e companhia.


Robert Smith (The Cure) foi um dos maiores entusiastas e apoiadores do Ride no começo. Foto: Martyn Goodacre

Nesse cenário de crescentes disputas de egos, divergências de ideias e a frequência cada vez menor de Mark Gardener nas sessões de gravação do quarto álbum, a banda anuncia o rompimento entre seus integrantes pouco antes de Tarantula ser lançado, em 1996. Com apenas duas canções cantadas por Mark, sendo uma delas composição sua, o disco é considerado praticamente um trabalho solo de Andy, e foi retirado de catálogo apenas uma semana após seu lançamento. Embora tenha sido massacrado pela crítica, o álbum tem ótimas músicas. Seu único single, a faixa de abertura Black Nite Crash, é uma porrada rápida, suja e vigorosa que qualquer fã de Black Rebel Motorcycle Club, por exemplo, consegue identificar como influência. Castle on the Hill é uma bela alegoria ao desmoronamento da banda. Burnin' dá a impressão das guitarras estarem realmente em chamas. Ironicamente, acaba sendo um disco indispensável para qualquer fã do Andy Bell que se preze.



Ainda compondo bastante, e querendo permanecer no meio musical, Andy vai à Creation e mostra algumas canções pra Alan McGee, que gosta do material, mas sugere que ele forme uma nova banda. Nas palavras de Andy, "de certa forma, ele estava tentando me dizer que eu não poderia cantar num mundo pós-Gallagher. O que era verdade". E assim, após algumas audições para recrutar um cantor, foi formado o Hurricane #1. A banda lançou dois discos; o auto-intitulado álbum de estreia, em 1997, e Only the Strongest Will Survive, em 1999. Obtiveram um sucesso moderado, graças, principalmente, ao ótimo primeiro single, Step into My World, uma das melhores músicas de Andy Bell, com um riff e um solo de guitarra absolutamente inspirados e marcantes. No entanto, talvez pela falta de carisma do vocalista Alex Lowe - visto por muitos como um imitador um tanto forçado de Liam Gallagher -, talvez pelo fato de ter sido uma banda montada, ao invés de espontaneamente formada por amigos, provavelmente por ambas razões e outras mais, a banda não vingou e também chegou ao fim. Embora tenha sido, definitivamente, o projeto menos inspirado em que Andy Bell se envolveu, a banda deixou um catálogo que não é de se jogar fora. Pegue as melhores músicas de cada um dos discos e o resultado daria um ótimo álbum. Destacadamente, Let Go of the Dream, Monday Afternoon, The Greatest High, Remote Control, Only the Strongest Will Survive e Afterhours - esta, uma belíssima balada introspectiva e melancólica, que conta com as participações singelas e comoventes de Andy e sua então esposa, a cantora sueca Idha, nos vocais de apoio.



Vivendo com a mulher e a filha na Suécia, e sofrendo de bloqueio criativo, Andy Bell estava considerando se retirar de vez do mundo da música em 1999, até receber um telefonema completamente inesperado. Liam e Noel Gallagher estavam o convidando para integrar nada menos que o Oasis, e como baixista! Um desafio completamente novo que ele não somente aceitou como cumpriu com excelência.



Tocando para públicos inimagináveis, no mundo inteiro, Andy se tornou uma figura mais conhecida que jamais fora, nem mesmo nos áureos tempos de Ride. Aliás, a banda de origem do agora baixista ganhou toda uma nova geração de fãs, seguidores do Oasis que queriam saber que banda era essa em que aquele cara tão quieto e discreto era vocalista e guitarrista, e acabavam se apaixonando (inclusive, o autor deste texto).



Em sua trajetória na banda de Manchester, que durou até a inevitável briga definitiva entre os irmãos, em 2009, Andy assinou a autoria de 5 canções, com destaque para Thank You for the Good Times, B-side do single de Stop Crying Your Heart Out que se tornou uma das músicas mais celebradas e simbólicas entre os fãs; Turn Up the Sun, faixa arrasadora que não somente abriu o álbum Don't Believe the Truth, de 2005, como todos os shows daquela turnê; e Keep the Dream Alive, do mesmo disco, outra música constantemente citada entre as melhores da segunda fase da banda.



Quando Noel Gallagher deixa o Oasis em 2009, Liam, Andy, Gem Archer e Chris Sharrock decidem continuar tocando juntos, e assim surge o Beady Eye. A banda lança dois álbuns; Different Gear, Still Speeding, em 2011; e BE, em 2013. O primeiro, um compilado de canções que os membros tinham engavetadas para uso futuro no Oasis, com algumas novas composições em conjunto. Tudo envolto num conceito sonoro e estético sessentista. O segundo, já mais ambicioso, moderno e viajado. Mas, talvez, intencional demais. Ótimas músicas foram lançadas em ambos, com Andy Bell voltando a tocar guitarra e a compor em maior quantidade - com destaques para o petardo de abertura do debut, Four Letter Word; a balada Kill for a Dream, do mesmo álbum; e a Verveana Soon Come Tomorrow, do BE - mas a falta de direção e planejamento da banda, e a aparente falta de estímulo de Liam, desacostumado com as demandas e audiências muito mais modestas que dos tempos de Oasis, resultaram num final meio-abrupto-meio-previsível do Beady Eye.



Por sorte, nesse meio-tempo, Andy Bell e Mark Gardener, já há muitos anos reconciliados e amigos novamente, juntamente a Loz Colbert e Steve Queralt, arquitetavam uma volta do Ride. E, aproveitando uma realidade totalmente diferente da dos anos 90, em que a Internet tornou possível que o shoegaze passasse a ser conhecido e apreciado por cada vez mais pessoas no mundo inteiro, e um revival do gênero, a banda anuncia seu retorno. E que retorno! Não foi uma daquelas reuniões caça-níquel que muitos artistas promovem, fazendo alguns shows e sumindo novamente por tempos imprevisíveis. Não. O Ride voltou com energia lá em cima, com tesão, tocando em festivais prestigiados, em performances explosivas e irretocáveis. E o melhor, voltando a gravar. E assim, são lançados os álbuns Weather Diaries (2017) e This Is Not a Safe Place (2019), além do EP Tomorrow's Shore (2018). Todos devidamente celebrados pelos fãs e pela crítica, com uma abordagem mais contemporânea de suas raízes shoegazers e a coesão e maturidade dos 4 amigos.

Foto: Linda Nylind/The Guardian

Também no ano passado, Andy lançou um single com duas faixas, Plastic Bag e The Commune. Desta vez, sem banda, sem pseudônimo, assinando como Andy Bell mesmo. Esse singelo pedaço de psicodelia parece ter despertado a verve e a disposição do músico, em meio à pandemia que vive o mundo em 2020, pois o que era especulado há muitos e muitos anos finalmente virá à luz: o primeiro álbum solo de sua carreira. Gravado com a ajuda de Gem, o amigo e companheiro de Oasis e Beady Eye, The View From Halfway Down será lançado em 9 de outubro. Mas não há motivos para preocupação, pois o Ride não acabou! Não dessa vez...

São ou não são 50 anos prolíficos deste ser humano maravilhoso? Vida longa a Andy Bell!






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